quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ORGAZANIZACIDADE

ORGAZANIZACIDADE


 
Tal como existe som organizado e não-organizado, também existe silêncio organizado e não-organizado. E isto porque vimos que o silêncio é um tipo de som. Logo, como som que é, também se inclui na categoria de organizados e não-organizados. Um exemplo de silêncio organizado é o som, equivalente em música, do símbolo musical de pausa. A pausa musical (da escrita ocidental europeia) tem o significado de silêncio, ou seja, ausência de produção de qualquer som, no instrumento ou i
nstrumentos, aos quais ela é referida. Dessa forma, o compositor controla e organiza os silêncios (pausas), da mesma forma que organiza e controla os sons (notas). Assim, este silêncio é organizado. Segundo referiu Salwa Castelo-Branco, na leitura do Alcorão, o silêncio é ordenado de forma tanto ou mais complexa do que o que é dito. É outra forma de silêncio organizado. Na obra de John Cage 4´33´´, o silêncio inscrito na partitura é silêncio organizado. Mas quando a obra é executada, o silêncio que escutamos é silêncio não-organizado; varia de uma interpretação para outra; e não depende do compositor, nem são organizados por ele, as tosses, os suspiros, o mastigar de chiclets, ou o som do ar condicionado. A organização do silêncio, em certa música contemporânea, é de tal forma importante que, como já vimos, muitos compositores hoje são reconhecidos estilisticamente pelos seus silêncios e pela forma como os organizam (Nono, Sciarrino, Cage, Feldman). Numa interpretação de um raga indiano, para sitar, tablas e tambura, existe sempre o som contínuo da tambura. Por cima deste drone, a percussão das tablas ou o solo de sitar interagem. Criando silêncios quando não tocam. Silêncios organizados. O som da tambura pode simultaneamente ser visto como um som subliminal, ou um silêncio audível tónico, sobre o qual os outros instrumentistas constroem as suas ideias musicais.
Todo o som da Natureza é não-organizado? Poderíamos ser levados a pensar que sim. Mas não é. O silêncio audível de uma floresta tropical na Indonésia, em que nos cheguem ao longe os sons desse silêncio, pode conter som organizado de diversos animais não-humanos. Ou seja, pode haver vestígios de som organizado nesse silêncio natural. Existe silêncio organizado mesmo sem a presença humana. Mas, no geral, o som da Natureza é, podemos afirmar, não-organizado. O silêncio audível num deserto, numa praia, numa floresta, numa gruta ou dentro de um vulcão desactivado. Da mesma forma, o silêncio audível que nos chega filtrado pelas janelas sofisticadas dos nossos prédios é, geralmente, uma mescla de silêncio organizado e não-organizado (tráfego, conversas entre seres humanos, sons de animais não-humanos não organizados). No instante em que escrevo este texto, o silêncio audível na minha marquise resume-se ao som subliminal do disco rígido do computador e ao ressonar subtil do meu gato. É um silêncio não-organizado, portanto.

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