quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ONDE SE LOCALIZA UM SOM?

 ONDE SE LOCALIZA UM SOM?

 

...onde localizo o som – que ouço aqui, no meu escritório - da buzina do carro que acabou de apitar na rua, e que ouvi filtrado pelo vidro da minha janela? Na fonte sonora (o carro); no meio (a rua, o vidro e o espaço do meu escritório); ou apenas na minha cabeça (sistema auditivo e cérebro)? Ou apercebermo-nos de um som é um conjunto de todos estes factores?
Para sabermos onde se localiza o som precisamos antes de saber o que é o som. Já vimos anteriormente de que era const
ituído o som, agora interessa saber o que é o som. Será o som algo do tipo “objecto” ou mais do tipo “evento”? Ou será antes uma propriedade ou qualidade de objectos ou eventos e, neste caso, será uma qualidade primária ou secundária?
Antes de me remeter ao que filósofos da música têm a dizer sobre este assunto, gostava desde já de dizer que, para mim, o som é um acontecimento audível. E que eu ouço a buzina do carro lá fora na estrada pelo vidro do meu escritório através do som do motor do automóvel (fonte), da rua, do vidro e do ambiente do meu escritório (o meio), e pelo meu sistema auditivo, que me transmite informação que o meu cérebro descodifica.
Sem a “fonte” não existe vibração; sem o “meio” não se propaga o som; e sem o sistema auditivo/cérebro (transdutor) não se estrutura o som.
O som da buzina do automóvel em si é um acontecimento que se desenrola no espaço e no tempo. E se este som for reproduzido numa sala de concerto através de altifalantes dispostos de forma acertada (respeitando o estéreo), obtemos um acontecimento a desenrolar-se temporalmente num espaço, desta feita um auditório.
Uma mulher que ande de sapatos de tacão alto, à noite, pelas ruas de Veneza, produz uma realidade sónica vivida por ela e por quem a ouça passar. Se gravarmos esse som, registaremos o som dos sapatos na pedra, mas também o som ambiente do espaço onde decorria essa acção. Se ouvirmos essa gravação num estúdio em Londres e gravarmos o som saído por altifalantes, estaremos a gravar no ambiente sonoro de um estúdio em Londres, um som produzido nas ruas de Veneza. E se, depois, gravarmos em disco e este for publicado, alguém no Alaska poderá, numa divisão da sua casa, ouvir um tema musical que contém a gravação de uma mulher de sapatos de tacão alto a caminhar à noite em ruas de pedra de Veneza, cujo som foi depois reproduzido num estúdio em Londres, e gravado, mesclando o som ambiente reverberado das ruas de Veneza com o som ambiente com pouca reverberação da sala de um estúdio.
Se o som fosse um objecto, dois ou mais sons não poderiam ocupar o mesmo espaço simultaneamente. Mas um uníssono de uma nota dó dada por uma flauta e um fagote parecem ocupar o mesmo espaço. E o nosso ouvido tem a capacidade de distinguir esses dois sons. De os descodificar. Num acontecimento audível, mesmo descontextualizado (o som da buzina de um automóvel escutado num auditório), continuamos a apreender/percepcionar o tipo de som, sem o relacionarmos com fonte sonora: temos uma experiência acusmática.
A mesa não é castanha. A refracção da luz é que nos transmite essa sensação. Os nossos olhos efectuam essa tradução. Da mesma forma, uma vibração causada por variadas frequências só se transforma em ruído branco no nosso cérebro.
Durante o período que durou a preparação desta minha investigação, efectuei muitos soundwalkings e experimentei caminhar por várias paisagens sonoras. Mas a experiência sónica mais próxima e importante, que teve algo a ver com a localização do som, foi a que efectuei na Galeria Zé dos Bois em Lisboa durante um concerto da Variable Geometrical Orchestral em que actuei posicionado no proscénio, no centro de vários músicos com diferentes instrumentos: um baterista, um percussionista, um violoncelista, uma guitarra preparada, uma trompete e um trombone, um contrabaixo electrificado, mais dois trompetes e um trombone e eu na guitarra electrónica.
A maior parte do tempo pude estar sentado a ouvir os outros instrumentos, de olhos fechados, tentando perceber de onde vinham os sons. Constatei que o som da bateria vinha exactamente de onde esta estava situada mas projectado um metro para a frente, ou seja, eu ouvia todas as peças que constituíam aquela bateria (prato de choques, bombo de chão, tarola, dois címbalos, e dois tom tons) e respeitando o estéreo, mas um metro mais à frente do que era a sua posição real no espaço. Ouvia o som da guitarra eléctrica preparada a sair do seu amplificador exactamente onde se situava. Os sons da trompete e do trombone à minha direita escutava-os da mesma forma que a bateria: um metro mais à frente do que a posição real . O violoncelo estava mesmo ao meu lado e era lá que eu o ouvia no meu cérebro. Apenas os dois trompetes e o trombone situados à minha esquerda é que pareciam soar dentro do meu crânio e não da sua posição real e que era a cerca de um metro de mim. Esses, pareciam estar em três pontos da minha cabeça, separados apenas por cêntimetros uns dos outros, mas mantendo a sua posição espacial.
Parece-me que estes instrumentos (trompete, trombone), possuem um dom (a que eu chamei de “ventriloquismo sónico”) que faz com que o som não aparente vir da fonte sonora, mas de um outro sítio no medium, neste caso concreto, a um metro de distância, bem dentro da minha cabeça.
A cigarra – o insecto – tem este dom. É-nos extremamente difícil localizar a posição real de uma cigarra através do som que esta emite. E isto independentemente do meio (nunca experienciei o som de uma cigarra numa sala mas já o fiz em cidades, campos e jardins). E é extremamente difícil determinar onde se localiza a fonte sonora, tal é o efeito de ventriloquismo sónico deste insecto.
E não tem a ver só com intensidade ou perspectiva, pois o som das cigarras induz-me em erro (não saber determinar onde se encontra posicionado a fonte sonora) ainda a uma certa distância da fonte sonora e por isso mesmo com uma fraca intensidade sonora; mas também sou induzido em erro quando tento posicioná-las estando muito próximo da fonte sonora e quando o som produzido pelas cigarras é de forte intensidade. Também o som das trompetes tocadas com uma forte intensidade e a uma grande proximidade do meu sistema auditivo me induziu em erro, pois ouço-o na realidade a aproximadamente um metro do local onde elas estão na realidade posicionadas. Isto acontecia quando os metais tocavam a altas intensidades. Os sons de fraca intensidade já não provocavam esse efeito: ouvia-os no sítio real, na fonte sonora.
Mas como é que o som tem sido pensado? Para Casey O’Callaghan,

“Sounds are public objects of auditory perception. When a car starts it makes a sound; when hands clap the result is a sound. Sounds are what we hear during episodes of genuine hearing. Sounds have properties such as pitch, timbre, and loudness. But this tells us little about what sort of thing a sound is—which metaphysical category it belongs to. (Nudds & O´Callaghan, 2009:26).

O’Callaghan acha – tal como eu – que de pouco serve sabermos que o som tem propriedades como a altura, o timbre e a intensidade, pois isso não nos diz a que categoria metafísica o som pertence. Mas quando diz que quando batemos palmas produzimos um som, está a pressupor que alguém escuta esse som. Se não existir receptor não há som mas apenas vibração, o que sugere que o som deveria ser classificado como uma qualidade secundária, como faz Locke, que sustenta que


“sounds are properties of bodies. More specifically, he held that sounds are secondary qualities: sensible qualities possessed by bodies in virtue of the ‘size, figure, number, and motion’ of their parts, but nonetheless distinct from these primary attributes (Essay, II.8)” (Nudds & O´Callaghan, 2009:27).

Ou seja, em vez de ver os sons como eventos, Locke vê-os como propriedade dos objectos (fonte sonora) e classifica-os como qualidades secundárias, isto é, qualidades subjectivas e dependentes da mente mas causadas por um objecto percepcionado.
Para Robert Pasnau, os sons são

“physical properties of ordinary external objects” (Nudds & O´Callaghan, 2009:27).

Pasnau afirma que

“sounds are properties of objects, though he reduces sound to the primary quality that is the categorical base of Locke’s power, i.e., that of vibration or motion of a particular sort” (Nudds & O´Callaghan, 2009:27).
Esta não é a visão da maior parte dos físicos da acústica. Estes cientistas e físicos têm uma visão do som completamente diferente. O som

“is a disturbance that moves through a medium such as air or water as a longitudinal compression wave. Vibrating objects produce sounds, but sounds themselves are waves. When we hear sounds, we do not immediately hear bodies or properties of bodies; we hear the pattern of pressure differences that constitutes a wave disturbance in the surrounding medium” (Nudds & O´Callaghan, 2009:27).

Os objectos vibram produzindo ondas sonoras, mas isso não significa que nós ouçamos os objectos em si ou as suas propriedades.
Segundo O´Callaghan existem duas teorias sobre o som: a teoria do som como ondas (Aristóteles) e a teoria do som como eventos. Para Aristóteles

“‘sound is a particular movement of air” (…) “everything which makes a sound does so because something strikes something else in something else again, and this last is air” (Nudds & O´Callaghan, 2009:27).

Para os pensadores da visão do som como eventos (que é a minha visão) os sons são

“particular events of a certain kind. They are events in which a moving object disturbs a surrounding medium and sets it moving. The strikings and crashings are not the sounds, but are the causes of sounds. The waves in the medium are not the sounds themselves, but are the effects of sounds. Sounds so conceived possess the properties we hear sounds as possessing: pitch, timbre, loudness, duration, and as we shall see, spatial location. When all goes well in ordinary auditory perception, we hear sounds much as they are” (Nudds & O´Callaghan, 2009:28).

Mas que tipo de coisa é o som? Nudds e O´Callaghan dizem-nos que

“Sounds are among the things we hear. Auditory experience is directed upon sounds. Sounds, therefore, are intentional objects of audition” (Nudds & O´Callaghan, 2009:4).

Durante a minha tese, tentei enumerar os diferentes tipos de sons que existem: dos infra aos ultra-sons, dos sons eléctricos aos electrónicos, do silêncio ao ruído, todos estes eventos eram som. Sendo assim, não existe nada que nós ouçamos que não seja som.

“it is plausible to say that whenever you hear something, and whatever you hear, you hear a sound. It is doubtful you could hear something without hearing a sound” (Nudds & O´Callaghan, 2009:5).

Vários filósofos do som, impressionados pela natureza temporal do som, argumentam que

“sounds are events of a certain kind” (Nudds & O´Callaghan, 2009:6).

O´Callaghan adianta que a presença de um medium

“is a necessary condition not just upon the perceptibility but upon the existence of a sound, and proposes that sounds are events in which vibrating objects or interacting bodies actively disturb a surrounding medium” (Nudds & O´Callaghan, 2009:6).

Após estas inúmeras definições de som apresentadas aqui por estes filósofos da música e a minha apresentada no início deste meu sub-capítulo, podemos agora discutir onde este se localiza: na fonte, no medium ou no receptor. Este é um outro ponto de discórdia entre diversos pensadores, para além dos debates sobre se os sons são dependentes da mente ou independentes desta; se os sons são indivíduos ou propriedades; se são do tipo-objecto ou do tipo-evento. Vejamos, então, o que nos dizem Nudds e O´Callaghan sobre esta matéria:

“One main disagreement between the wave-based accounts of sound such as those of Nudds, Sorensen, and O’Shaughnessy (see also Hamilton, Chapter 8) and source-based accounts such as those of Pasnau, Casati and Dokic, and O’Callaghan (see also Matthen forthcoming) concerns the locations of sounds. The former locate sounds in the medium and imply that sounds propagate and thus occupy different locations over time, or travel. The latter hold that sounds are located at or near their sources and do not travel through the medium—sounds travel only if their sources do” (Nudds & O´Callaghan, 2009:7).

Depois avançam que

“Distal sound theorists commonly argue that sounds seem in auditory experience to be located at or near their sources. Sounds, they claim, do not seem travel from the source towards your ears, do not under ordinary conditions seem to pervade the medium (perhaps they do under special circumstances, such as in a loud nightclub), and do not seem to be nearby or at the ears. Instead, they claim that sounds auditorily seem to be where the things and events that generate them are located. If we do experience sounds to be distally located, and if sounds are roughly where they seem to be, then sounds do not travel through the medium as wave accounts imply. Distal theorists charge that unless we systematically misperceive the locations of sounds, sounds do not travel through the medium as do pressure waves” (Nudds & O´Callaghan, 2009:8).

Já Hamilton, por exemplo, pensa de forma diferente e argumenta que

“we hear only where the traveling sounds have come from, rather than where they are” (Nudds & O´Callaghan, 2009:8).

Os teóricos que pensam como Hamilton afirmam que

“The physical waves are not the sounds, and the sounds do not travel with the waves, but the waves mediate between sounds and hearers” (Nudds & O´Callaghan, 2009:8).

Outros autores defendem – como eu – que a localização dos sons (na altura em que os ouvimos) se encontra num estágio diferente na cadeia causal que medeia entre a fonte e o receptor:

“That causal chain begins with the activities of things in the environment, leads to wave-like motion in a medium, continues with stimulation of the auditory sense organs, and culminates in auditory experiences. Distal theories locate the sounds we hear at an earlier stage in the causal sequence than do proximal theories” (Nudds & O´Callaghan, 2009:8-9).

Será que quando escutamos sons nos apercebemos de alguma forma do espaço onde estes agem?

“It would be difficult to deny that hearing conveys spatial information” (Nudds & O´Callaghan, 2009:9).

Alguns teóricos defendem que

“you hear sounds to be located at some distance in a given direction and thereby come to learn about, and perhaps even to hear, the locations of their sources” (Nudds & O´Callaghan, 2009:9).

Desse modo dizem-nos que

“Under such conditions, auditory experience might have spatial content or represent spatial features” (Nudds & O´Callaghan, 2009:10).

Nudds, por exemplo, argumenta que

“that sound sources, rather than sounds themselves, are auditorily experienced as distally located. This accommodates the empirical evidence about auditory localization without accepting that sounds themselves are experienced to be located” (Nudds & O´Callaghan, 2009:10).

Alguns teóricos do som dizem que

“locations of sound sources is provided by the audible locations of sounds at their sources” (Nudds & O´Callaghan, 2009:10).

Por contraste com esta visão, alguns pensadores que atribuem

“spatial content to auditory experiences hold that audition attributes spatial properties to sound sources” (Nudds & O´Callaghan, 2009:10).

Quando ouvimos o som de uma bola de andebol a bater no chão de um pavilhão, ouvimos só o som da bola ou ouvimos também o som do espaço onde este se realiza? Segundo O´Callaghan

“in hearing the sound of footsteps I might also hear the enclosed space in which they are being taken” (Nudds & O´Callaghan, 2009:12).

A localização do som é um debate recente na nova teoria do som e é algo com que alguns pensadores, especialmente no âmbito da filosofia da música, têm tentado lidar . A acústica diz-nos que o som consiste em ondas que viajam da fonte sonora até aos nossos ouvidos. Actualmente há quem discorde deste ponto de vista (como vimos anteriormente) e tente dar uma nova visão à localização do som. Creio ser muito importante esta discussão e o facto de haver cada vez mais teóricos interessados nesta problemática é, certamente, um sinal dessa importância. Os sons estão por todo o lado e precisamos de saber como chegam até nós e de que forma nós os apreendemos; e, especificamente, qual a importância da fonte sonora, do medium e do receptor nesta manifestação sónica.
Esta é uma matéria que me parece mais pertencer à ontologia ou à metafísica do som do que à acústica...

VISUAL & SONORO

 VISUAL & SONORO



...vivemos numa época em que para a maioria das culturas a representação da realidade que domina é visual. São raras as culturas aurais e para todas elas som é sinal de existência. Para a maioria de nós o mundo é uma realidade visual que nós consultamos e de que nos damos conta, olhando e lendo objectos como fontes de informação. Se queremos saber a que velocidade nos deslocamos num carro, olhamos para o velocímetro e não só não perdemos tempo a ouvir o som do motor do carro
como essa simples ideia nos parece de imediato perversa. No entanto, alguém com ouvido absoluto pode detectar a que velocidade se desloca pelo som (determinada altura) produzido pelo ruído do motor do seu carro: o som de uma nota Fá abaixo do Dó central do piano pode significar a velocidade de 120 quilómetros por hora. Uma pessoa com essa habilidade pode detectar erros num velocímetro avariado. Um som que corrige uma imagem. O valor de tal conhecimento – aprender a ouvir – é o de que torna transparentes aspectos do mundo visual que nos são opacos normalmente. E este conhecimento é um conhecimento musical...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

ASPIRADOR & VÁCUO

ASPIRADOR & VÁCUO

 

...existem - contrariamente ao estudos e conclusões usuais sobre esta matéria - filósofos do som, a defenderem a existência de som no vácuo; um deles, apresenta uma ideia muito interessante e que nos faz pensar; diz ele, para imaginarmos um aquário com uma pessoa lá dentro com um diapasão; lá dentro estaria, também, uma espécie de aspirador que sugaria o ar depois de accionado o diapasão - supostamente interrompendo o som, por se ter criado vácuo, e depois esse "aspirador", v
oltaria a repor o ar, voltando o som do diapasão a surgir; ora, o que diz este filósofo é que, o som do diapasão tem de continuar a existir, independentemente do ar ter desaparecido, pois nós vemos que o diapasão continua a vibrar, onde - segundo este filósofo -, o som continua a propagar-se; assim, o diapasão vibra e existe ar e há som; depois retira-se o ar - e como continuamos a ver o diapasão a vibrar, não há - segundo o mesmo filósofo - razões para supor que o som deixa de existir, uma vez que o som - segundo a acústica - é uma vibração num meio elástico, e esta - a vibração -, continua a existir; e depois retorna o ar, e o som continua a sobreviver; esta é uma visão curiosa, e que de facto - pelo menos tem esse dom -, nos faz pensar, e não dar por adquirido, aquilo que todos pensam ser uma verdade imutável...

SONOSFERA

SONOSFERA



...o nosso sistema auditivo é uma coisa fantástica... Mas antes de falar nele, queria-vos falar da "Música das Esferas"; os gregos admitiam a existência de uma "música das esferas", pois se todos os corpos ao moverem-se, produziam som, então, os planetas também deveriam produzir som; mais: Música! Mas... Porque não ouvimos nós essa "música"? Aristóteles argumentava, de que, como ouvimos esse som desde o nosso nascimento, nunca deixando de o ouvir, o ouvido não tem a capacidade de distinguir esse som, do seu oposto, o silêncio; mas o problema de Platão, é que o silêncio é um som; um tipo de som; logo, não é "oposto" do som, porque de um som se trata; o que Platão quereria dizer, é que estamos habituados tanto a esse som (como os ferreiros estão habituados ao som do metal dos martelos batendo nas bigornas), que o incorporamos, subliminarmente, com os outros sons que nos rodeiam. Mas voltemos agora de novo ao nosso sistema auditivo; o que ele faz é extraordinário; já nem falo da sua capacidade de transformar em eventos audíveis, vibrações (periódicas ou aperiódicas); falo na capacidade espantosa que ele tem, de ele próprio gerar som; e entre os sons que ele é capaz de produzir, existe um, que nos é fundamental para a nossa existência; produz "silêncio"; e para que produz silêncio o nosso ouvido? Para que sons como o bater do coração, o nosso sistema nervoso, a circulação sanguínea, ou coisas como mastigar ou salivar, não se tornassem insuportáveis; assim, o nosso ouvido gera sons, que anulam esses nossos sons orgânicos (mastigar, bater do coração, sistema nervoso), de forma a que não os escutemos todo o tempo e intensamente; como deveria ser o caso! Reparem que o nosso ouvido consegue ouvir sons de muita pouca intensidade; o "hum" de um disco rígido de um computador a uma certa distância de nós; porque não ouvimos então a toda a hora o nosso coração que está dentro de nós mesmo perto das nossas orelhas? Isso não acontece, porque como referido anterirmente -, o nosso sistema auditivo, tem a funcionalidade de criar sons, diferentes tipos de sons, e entre eles, sons que anulam outros sons, gerando silêncio...

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MATRIOSKAS & SOM MEDIUM

MATRIOSKAS & SOM MEDIUM

 
...durante um concerto de guitarra clássica, dizemos que estamos a escutar "guitarra"; a fonte sonora é a guitarra; o medium é a sala de concerto (de notar que a caixa de ressonância da guitarra, é, per se, já um medium em relação às cordas da guitarra que realmente são a fonte do som); mas para alguém que esteja no corredor ou no hall da entrada dessa mesma sala de concerto, o som filtrado que lhe chega aos ouvidos, já não é somente o da guitarra; é também o som ambiente da
sala e do público (tosses, ruídos); assim, podemos dizer que a fonte sonora, já não é a guitarra - para esse indivíduo -, mas sim toda a sala de concerto; mas para alguém fora do edifício, no passeio cá fora, o som que lhe chega, é o do próprio edifício; o edifício é agora a fonte sonora e a rua o medium; mas para alguém fora dos limites da cidade onde se está a realizar esse concerto de guitarra clássica, o que ele escuta, é o som da cidade; ou seja: a cidade como fonte sonora e o meio ambiente fora do limite da cidade é o medium; mas um astronauta na Lua, pode registar o som do planeta Terra; ao fazer isso, o planeta Terra é agora uma fonte sonora e o espaço é o medium; assim, existe uma espécie de "mise en abîme", entre a fonte sonora que está num medium, que por sua vez, se torna numa fonte sonora incluída noutro medium, que se torna este também, noutra fonte sonora; e assim sucessivamente, como aquelas bonecas russas: as matrioskas...

INTENCIONALIDADE & ORGANIZACIDADE

INTENCIONALIDADE & ORGANIZACIDADE 

 

...ao escrever este texto no teclado do meu iPad provoco som causado pelo contacto dos meus dedos e unhas nas teclas. Este som é não-intencional. Eu não tenho intenção de produzir esse som. Pelo contrário: seria maravilhoso, conseguir escrever sem escutar o martelar das teclas. Este som, é assim, uma consequência da minha intenção de escrever este texto. Existe uma intencionalidade na escrita, e uma não-intencionalidade no som. Mas este som não-intencional causado pela intencion
alidade da minha escrita, é organizado. Existe uma organização. Eu penso e repenso no texto que vou escrevendo; escrevo e rescrevo-o; corrijo e altero; sempre com a intenção de o tornar mais perceptível. Por isso, o som não-intencional do martelar dos meus dedos e unhas nas teclas do iPad, é organizado: respeita e obedece regras do raciocínio que envolve a escrita deste meu ponto de vista.
Já o som deste parágrafo - que escrevo neste momento -, é intencional. Isto porque estou a escrevê-lo seguindo o ritmo da abertura da quinta sinfonia de Beethoven. E é, logicamente, um som organizado.
Reparem agora na frase que vou escrever entre aspas: "iwyepwef wepifhwe fwhwf fbe weh fpwh fwiuh f wqherqwiuh fq qpvbhbvuier fwhf whf fuwo efn f fowih fnd". Esta frase foi escrita, martelando as teclas ao ritmo da música para lute que escuto neste momento. Trata-se portanto, de um som intencional e organizado. Já o texto resultante deste exercício sónico, é uma frase sem qualquer significado. A não ser talvez, para uma qualquer raça alienígena, que o saiba interpretar. É um texto não-intencional e não-organizado, provocado por uma intencionalidade e organizacidade sónica.
Existe som intencional e não-intencional provocado pelo ser humano, e som intencional e som não intencional na Natureza.
Quando alguém toca numa harpa para interpretar uma obra do Arpo Marx, está a produzir som intencional; já se um de nós deixar cair, sem querer, um garfo no chão, esse som assim produzido é não-intencional.
Certos animais - como as baleias e os elefantes - produzem sons intencionais: comunicam entre si; já o som do vento, da chuva ou do mar, é não-intencional. No primeiro caso - o das baleias e elefantes -, o som é organizado; no segundo caso trata-se de som não-organizado.
Relativamente a estes casos de som não-intencional da Natureza (vento, chuva, trovoada, mar, etc.), dá-se o caso de, numa escuta reduzida, "entendermos" uma organização no som de certo vento, chuva ou ondas do mar. Mas essa organização, estará na escuta e não na produção do som. Não existe intencionalidade numa gota de água que pinga sobre uma lata de metal. Mas a escuta, o nosso entendimento desse som, pode revelar-nos determinada organização sónica: o ritmo repetitivo da gota de água a pingar, seguido - por exemplo - de um ritardando quando a água começa a escassear. Parece-me existir uma organização nesse tipo de escuta, a que Pierre Schaeffer intitula de "escuta reduzida", ou quando se refere a diferentes tipos de escuta, e nos recorda que "ouvir" algo, é diferente de "entender" algo.
Assim, diríamos que podemos escutar sons não-organizados, de forma organizada e podemos ouvir sons organizados de forma não organizada (uma pessoa num estado alterado - por certas drogas -, pode estar a ouvir sons organizados de uma forma não-organizada. Como exemplo, podemos dar o caso de um bêbado que chega a casa, e a mulher começa a interrogá-lo sobre onde esteve e o que se passou, e porque está ele assim naquele estado, e ele, perante o som organizado da voz da esposa, não reagir - por nada lhe fazer sentido, e as palavras proferidas pela companheira não terem nele o efeito de um discurso organizado -, e em vez de lhe responder, vomita antes, por cima do tapete persa, que tinha sido oferecido ao casal, pelos sogros do bêbado em questão)...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

DEVIR-MÚSICA

DEVIR-MÚSICA

 

...em vez de tentar definir “música”, vou partir do princípio de que sei perfeitamente o que ela é, e que estou mais interessado de momento, em tentar entender, como ela surgiu. Imagino um nosso antepassado das cavernas, sentado à sombra de uma azinheira, depois de ter comido uma opípara refeição à base de fruta, e escutando, ou melhor, entendendo1 o chilrear de um rouxinol, poisado num ramo por cima da sua cabeça. “Que linda <coisa>”, pensa ele enquanto afasta com a mão um mosquito; “Vou tentar imitar o que entendi”. E ao fazer isso - o nosso amigo australopiteco -, ao tentar reproduzir o chilrear do rouxinol, ele fez música.
Mas... E antes de fazer essa música, que se passou? Que entendeu o nosso amigo primitivo? Que é que o levou a mimetizar aquele evento sónico? O meu argumento é o de que ele entendeu música. Ele ouviu um som; escutou-o; e finalmente entendeu-o; até esse momento, ele só tinha ouvido o chilrear do rouxinol; nesse dia entendeu-o; e ao fazê-lo, ouviu música. Não se trata - para mim -, de um caso semelhante ao do “ovo e da galinha”, mas sim de um facto lógico: nunca me apeteceria água se ela não existisse...