“O silêncio não existe;
viver é mantermo-nos no centro de um fluxo
que só a morte interromperá”.
(François Mauriac)
Mas afinal o que é o silêncio? O silêncio é um estado sonoro onde o
receptor não acha correspondente audível que sobre ele ou sobre o meio
ambiente interfira. No meio ambiente o silêncio é muitas vezes associado
ao facto de não se ouvirem paisagens sonoras criadas pelos humanos.
Diz-se que um ambiente está em silêncio mesmo que estejam pássaros a
cantarola
r , pois eles fazem parte do
ambiente natural. É quando “ouvimos” o silêncio da natureza. Não existe
um silêncio absoluto, mas sim um silêncio audível.
Segundo o
Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (2001:3412), silêncio “é a
ausência de barulho, de ruído”. Já no The Free Dictionary (um
dicionário online) a definição de silêncio é que este é “ausência de som
ou ruído ”. Pensamos que a inclusão do termo “som” é – ainda que a
definição continue incorrecta – mais indicada e mais universal do que na
definição do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Aliás
pensamos que uma vez que ruído é uma espécie de som, teria sido
suficiente dizer que silêncio seria a “ausência de som”. Ora, se já
definimos ruído, e se silêncio é – segundo estes dicionários - a
ausência deste, então a definição de silêncio seria o oposto da
definição de ruído: silêncio ≠ ruído. Mas na realidade não é assim tão
simples. É que tal como na definição de ruído existem várias
interpretações (físicas ou musicais) e diferentes tipos de ruído, também
na noção de silêncio encontramos diversidade. Então se silêncio é
ausência de barulho, de ruído, se estivermos a ouvir Bach é silêncio? Ou
a música de Bach é ruído? E se estivermos a ouvir o chilrear de um
rouxinol? É barulho? E, se não é, é silêncio? E duas pessoas a
conversarem: é barulho, ruído ou silêncio? Ou nenhuma destas opções?
Reparemos de que forma o compositor John Cage, que escreveu uma
composição só de silêncio intitulada 4´33´´ e que abordaremos mais a
seguir, no diz sobre o silêncio:
“a experiência sonora que eu
prefiro, a todas as outras, é a experiência do silêncio. E o silêncio,
em quase toda parte do mundo actual, é o tráfego. Se você ouvir
Beethoven ou Mozart, você vê que é sempre a mesma coisa. Mas se você
ouve o tráfego, é sempre diferente” .
É interessante observarmos em
pormenor algumas subtilezas desta sua afirmação, a começar por quando
ele diz que a experiência do silêncio é uma experiência sonora. Depois
dá-nos como exemplo de silêncio, o tráfego, e que este, contrariamente a
Beethoven e Mozart que são sempre iguais, é sempre diferente, numa
alusão à aleatoriedade do tráfego, e à rigidez da escrita musical de uma
partitura musical. Diz-nos ainda Cage:
“o silêncio é todo o
som não intencional. Não existe silêncio absoluto. Assim, o silêncio
pode incluir na perfeição sons de forte dinâmica, e cada vez mais no
século XX isso acontece” .
Reparemos que, em primeiro lugar,
Cage considera que o silêncio é um som, embora não intencional; que não
existe silêncio absoluto, e que o silêncio pode conter sons de forte
dinâmica. Já não bastava o facto de admitir que o silêncio pode conter
sons, como ainda por cima podem ser sons de forte dinâmica. Mas será
assim tão difícil aceitar afirmações deste teor? Vejamos: sabemos que
existem os infra-sons e os ultra-sons. São sons que estão
respectivamente abaixo e acima do âmbito da nossa frequência auditiva.
Dessa forma, são sons e nós não os ouvimos (o nosso sistema auditivo não
foi concebido para os escutarmos). A única coisa de que temos a certeza
é de que não existe silêncio absoluto (excepto no vácuo e na percepção
de máquinas sob condições acústicas especiais, condições essas só
existentes num local que se designou de câmara anecóica e que pode ser
registado em decibéis, neste caso de zero decibéis; mas mal esteja
presente um ser vivo, esse silêncio absoluto deixa de existir). Foi por
essa experiência que passou o compositor John Cage, constatando que, ao
querer escutar o silêncio, afinal escutou dois sons e, depois de
descrevê-los ao o técnico de som, ficou a saber que um dos sons (agudo)
era o seu sistema nervoso e o outro (grave) era a circulação sanguínea. A
partir dessa experiência Cage tinha – segundo ele – a hipótese de
seguir pela estrada que todos os compositores tinham escolhido até aí (o
de produzirem intencionalmente algo), ou a de ir por um outro caminho
nunca percorrido, e que era o da não-intencionalidade (ele queria ouvir o
silêncio e o corpo dele não o deixou, criando não-intencionalmente
som). Isso levou-o então à realização da peça de silêncio com o nome de
4´33´´ , correspondentes aos minutos durante os quais o ou os
intérpretes estão em silêncio sem tocarem no ou nos instrumentos e,
dessa forma, os sons que se ouvem são do público e do ambiente que
rodeia o espaço da realização da obra: é a não-intencionalidade no seu
expoente máximo. Mas como se “escuta” uma obra como a 4´33´´? Segundo
James Pritchett, existem duas formas de a audiência lidar com esta peça:
“The first is to pay attention to the acoustic quality of the ambient
sound we hear during the piece. “Oh,” we may say to ourselves, “there
are all kind of sounds going on in this space that I never noticed
before.” We become interested in these noises and what we can detect for
those four and a half minutes. This is treating the piece as an
aesthetic object, like any other piece of music, only one built out of
very unusual materials.” (Pritchett, 2009:174-175).
Encarar a
composição 4´33´´como uma outra peça musical qualquer, embora esta seja
constituída por “materiais invulgares”. Pritchett ao utilizar “materiais
invulgares”, está a referir-se ao uso do silêncio como matéria-prima
desta obra. Ora, já desde 1947 os concretistas usavam o ruído nas suas
composições. Este também era – na altura – uma “matéria invulgar”
sonora. E as pessoas – pelo menos algumas – ouvem essas peças como
quaisquer outras obras musicais. Porque haveria de ser esta obra
encarada de forma diferente?
“The other common way of dealing
with this piece is to think what it might mean: to think about the
concept of silence, whether silence even really exists, the
philosophical significance of a composer making a work that contains no
willful sound, the composer´s silence as a metaphor for any number of
things, the political implications of putting the concert audience in
this position.” (Pritchett, 2009:175).
Faz-me pensar – esta
segunda forma que Pritchett nos diz sobre como a audiência pode lidar
com esta obra – no urinol do Duchamp. Também este fez as pessoas
questionarem “o que era a Arte”, e se aquela obra era ou não arte.
Aliás, de certa forma, pode-se estabelecer uma relação entre o conceito
de ready made do Duchamp que tem início com o urinol, e esta peça de
Cage – 4´33´´– que, de certa forma, é um ready made sonoro: também aqui
Cage nada “cria”; limita-se a usar um som ready made em tempo real pela
audiência e meio ambiente onde se desenrola a interpretação. Assim,
segundo Pritchett, esta composição,
“Can most usefully be seen
as a tribute to the experience of silence, a remainder of its existence
and its importance for all of us. But the piece is flawed, however, in
that it may suggest that silence is something that can be presented to
us by someone else. Ultimately, the experience of silence is not
something that can be communicated from one person to another. It cannot
be forced into existence externally, and we cannot willfully make it
happen.” (Pritchett, 2009:177).
John Tilbury pega na afirmação
de Cage de que "não existe silêncio absoluto" e vai mais longe ao dizer
que “o silêncio” (seja absoluto ou não) pura e simplesmente “não existe”
, o que não deixa de ser uma evolução lógica para o raciocínio de John
Cage, pois se não existe "silêncio absoluto" é porque existe um
"silêncio audível" e é "audível" precisamente porque contém som e assim
sendo esse silêncio é "som" e não "silêncio". Para Chris Cutler o
"silêncio é um som que não ouvimos ", o que nos remete novamente para a
ideia já iniciada por Tilbury de que "silêncio é um som". Eddie Prevóst
diz que
“Silence is the physical condition where a human being
notices the absence of any sound. This can be relative. Awareness of
small inconsequential sounds may also inhabit silence. In fact there is
no silence except perhaps for those who are deaf. Remaining silent
within a sound-proofed room, the subject will become aware of the sound
of their blood circulating ”.
Já no que diz respeito ao
silêncio, Schafer refere que é "ausência de som", quanto a nós,
“corrigindo” a definição do Dicionário da Língua Portuguesa
Contemporânea, segundo o qual "silêncio é a ausência de ruído". E
diz-nos que o silêncio é "negro". Da mesma forma que na óptica o branco é
a soma de todas as cores, o negro é a ausência de cor (som). Para
Schafer "o silêncio soa" pois "mesmo quando cai depois de um som,
reverbera com o que foi esse som e essa reverberação continua até que
outro som o desaloje ou ele se perca na memória" (Schafer, 1992:71).
Esta última frase de Schafer parece-nos descrever na perfeição a música
de Morton Feldman - cheia de "silêncios reverberados" entre as notas.
Esta analogia sinestésica entre o "negro=ausência de cor=ausência de
som”, leva-nos a propor que se chame de "ruído preto" ao silêncio, da
mesma forma que chamamos de "ruído branco" à "presença de todas as
frequências audíveis em um som complexo". E, ao fazermos isso, estamos a
considerar o silêncio não um "som" como Cutler, mas um "ruído" (uma
espécie de som).
Giancarlo Schiaffini diz-nos que “o silêncio é a
música perfeita ”, naquilo que nos parece ser uma visão de acordo com a
sabedoria pitagórica, segundo a qual o silêncio não é o vazio nem o
contrário de som, mas sim que o silêncio é “Música das Esferas”. Para os
pitagóricos o facto de não ouvimos essa “Música Celestial” é como um
ferreiro que já não ouve o barulho da bigorna: está tão acostumado que
já não lhe dá atenção. É nesse sentido, que uma tal música nos é
“silenciosa”.
Murray Schafer pediu a um seu aluno que investigasse sobre a “Música das Esferas” e esta foi a definição a que este chegou:
“A Música das Esferas é uma teoria muito antiga: ela se reporta, pelo
menos, até aos gregos, particularmente à escola de Pitágoras. Dizia-se
que cada um dos planetas e estrelas fazia música enquanto viajava pelos
céus. Pitágoras, que havia elaborado as razões entre as várias harmonias
de cada corda sonante, descobriu que havia uma correspondência
matemática perfeita entre eles, e, como estava interessado nos céus,
notou que esses, do mesmo modo, se moviam de maneira ordenada,
conjecturou que as duas coisas eram aspectos da mesma lei matemática
perfeita, que governava o universo. Se fosse assim, então, obviamente os
planetas e as estrelas deveriam fazer sons perfeitos ao se mover,
exactamente do mesmo modo que a vibração da corda produzia harmónicos
perfeitos.” (Schafer, 1992:164).
Schafer usa uma frase de Fourier em que este diz que
“o som perfeitamente puro (definido matematicamente), onda sinoidal, só existe como conceito teórico.” (Schafer, 1992:168).
Logo, para Schafer, nós só ouvimos sons “imperfeitos”, ou ainda, como
seres imperfeitos que somos, não ouvimos a Música das Esferas. Conclui:
“O que estou dizendo é simplesmente que esses antigos humanistas
acreditavam que um som perfeito seria percebido como um silêncio!”
(Schafer, 1992:169).
Uma das características que segundo Cage
diferenciava os compositores europeus dos americanos, era que estes
últimos incluíam mais silêncio nos seus trabalhos. Ou seja: já não nos
guiamos só pela melodia, a harmonia e o ritmo, para reconhecermos o
estilo de um determinado compositor, mas agora também pelo tipo de
silêncio. Aliás - para Cage - não se trata de reconhecer um compositor,
mas sim toda uma escola de compositores de um determinado País. Dissemos
anteriormente que, tal como o ruído, também existiam vários tipos de
silêncio . Em primeiro lugar, gostávamos de constatar que, se não existe
silêncio absoluto é porque existe apenas um outro tipo de silêncio a
que chamaremos de silêncio audível. Se estiverem duas pessoas, no
Inverno, dentro de casa, à noite, jogando xadrez e se tudo estiver
calmo, podemos afirmar que estão concentrados devido ao silêncio. Mas se
estivermos com os ouvidos bem atentos, veremos que esse silêncio é
apenas relativo pois, com concentração, ouviremos o vento e a chuva lá
fora, o crepitar da lareira e as suas respirações. Tal como no ruído -
também existem variegados tipos de silêncio.
Sabíamos da importância
do silêncio na música, em especial na contemporânea, mas é raro ver-se
classificar ou analisar os diferentes silêncios dessas obras. Vejamos o
caso do silêncio do compositor John Cage e a sua composição 4´33´´:
nessa peça, os intérpretes deverão abster-se de tocar no instrumento
musical durante um período de 4´33´´ dividido em três secções (Tacet I:
33``; Tacet II: 2´40´´; Tacet III: 1´20´´). Dessa forma, a experiência
auditiva dos espectadores é um pouco semelhante à das duas pessoas
sentadas a jogar xadrez: estes são intérpretes de uma música silenciosa,
mas ouvem as suas respirações, o crepitar da lareira, o vento, a chuva
ou o uivar dos cães à distância. Assim, esta composição é sempre
diferente, consoante o sítio onde é executada (numa sala de concerto ou
ao ar livre) e as pessoas que assistem ao evento. O que ouvimos, ao
escutar o “não tocar” dos intérpretes, é tudo o resto.
Mas há
outros silêncios. O silêncio - por exemplo - de um outro compositor
americano: Morton Feldman. No caso de Feldman, os seus silêncios são
constituídos por infindáveis reverberações, como lhes chamou John
Tilbury - que é um expert da música de Feldman. Ou seja: embora não haja
acção instrumental durante curtos ou longos espaços temporais, o
silêncio é constituído por reverberações de acções instrumentais
passadas.
Mas há mais: os silêncios de Salvatore Sciarrino ou Luigi
Nono. São silêncios de certa maneira idênticos. Aliás, segundo
Sciarrino, Nono terá tido um primeiro contacto com esse tipo de silêncio
numa obra sua . Silêncios criados a partir de pianíssimos instrumentais
ou vocais. Ou seja, o silêncio de Sciarrino e Nono é constituído de
sons instrumentais ou vocais quase imperceptíveis, por vezes quase
parasitas sonoros, no sentido de que são sons que surgem por serem os
instrumentos tocados a fracas dinâmicas. Poderemos definir esse silêncio
como sendo um silêncio sonoro subliminal. E, para ouvirmos essa música,
necessitamos de uma nova escuta (Carvalho, 2007).
Mas temos que ter
muito cuidado com definições absolutistas e, por vezes, redutoras, pois
sintetizam apenas uma pequena essência de algo muito mais complexo.
Vejamos o exemplo do silêncio “digital”. Certos compositores
contemporâneos incluem o silêncio digital - criado artificialmente - nas
suas peças. Assim, ao contrário do que acontecia, por exemplo, nos
discos de vinil, onde o silêncio era constituído pelo ruído amplificado
da agulha sulcando o vinil, agora, com a tecnologia digital,
conseguiu-se criar o silêncio total (no que toca ao atrito provocado
pela agulha no disco). Se em Cage o silêncio é álibi para se ouvir tudo o
resto, neste caso, no silêncio digital, o que se pretende é a audição
desse mesmo silêncio.
A etnomusicóloga Salwa Castelo-Branco refere
que, na leitura do Alcorão, o silêncio está meticulosamente delineado;
tanto ou mais que a parte escrita. Neste contexto sugeriu como exemplo,
a leitura de Al-Sheikh Abdel Basit Abdel Samad.
Todas estas
questões e preocupações são recentes, pouco estudadas e analisadas. Daí,
no meu entender, a pertinência de as abordar, estudar e, sob um ponto
de vista inovador e original, procurar a intersecção de várias ciências e
saberes. E, simultaneamente, a reflexão sobre estes conceitos numa
perspectiva metafísica, e que o musicólogo Mário Vieira de Carvalho
designou de “Pensamentos filosófico-analíticos sobre som”, procurando
assim definir o que para uma comunidade de músicos contemporâneos
representa o silêncio.
“Talvez não seja legítimo então
considerar o silêncio como a condição do som. O dado de partida parece
ser sempre um misto de silêncio e de sons, porque, onde encontrar o
silêncio absoluto?” (Nattiez, 1984:213).
Nesta frase de
Nattiez, só lhe fazia uma minimal alteração: retirava a palavra
“silêncio”, na frase “um misto de silêncio e de sons”. É suficiente
dizer “um misto de sons”, uma vez que - como o próprio Nattiez diz de
seguida: “onde encontrar o silêncio absoluto?” – o silêncio é um tipo de
som. Se não existe silêncio absoluto (ou melhor: existe no vácuo e numa
câmara anecóica, mas não é nunca presenciado pelo ser humano), o que
existe então, é um silêncio audível, um estado sonoro. Aliás é o próprio
Nattiez que de seguida afirma:
“Aquilo que pensamos ser o silêncio é, na realidade, um ruído.” (Nattiez, 1984:215).
Um silêncio ruidoso. E não é poesia. Existe mesmo. Como existe também
ruído silencioso. Por exemplo o dither noise . Assim, são factos
científicos que comprovam a existência destes “silêncios ruídosos” e de
“ruídos silenciosos”. Para reforçar a sua ideia, Nattiez, serve-se da
seguinte citação de John Cage:
“Graças ao silêncio, os ruídos entraram definitivamente na minha música” (Nattiez, 1984:213).
O que Cage quer dizer com esta frase, é que foi num estado de silêncio,
que ele tomou a consciência musical dos ruídos (existentes nesse
silêncio, uma vez que já se demonstrou que o silêncio é um estado
audível). Depois Nattiez diz-nos que
“existem pelo menos dois tipos de silêncios, o silêncio fora da música e o silêncio na música” (Nattiez, 1984:215).
O que Nattiez nos está a querer dizer, é que existem o silêncio
não-organizado e o organizado. Depois diz-nos que dentro do último
grupo, o do silêncio na música, existem três categorias:
“O
silêncio considerado como obra musical, em que se convida o auditor a
escutar os sons que ele contém, os silêncios de expectativa da música
clássica, e os silêncios considerados como valor em si na música
moderna.” (Nattiez, 1984:215).
No primeiro tipo de silêncio
aqui reportado por Nattiez, estariam obras como as de Erwin Schulhoff,
ou John Cage (onde nenhum som é produzido); no segundo exemplo estarão
todas as peças em que existam pausas entre um movimento musical e outro
(e que o auditor perceba que essa pausa não faz parte da música e
portanto não é escutada como musical); e no terceiro exemplo estarão
todos os compositores contemporâneos que usam o silêncio como forma
composicional. Diz-nos Murray Schafer:
“Não há nada tão sublime ou tão atordoante em música, como o silêncio.” (Schafer, 1992:72).
Da mesma forma que se reconhece o estilo de certos compositores pelas
gramática e sintaxe do seu som, também actualmente, certos compositores,
são reconhecidos pela gramática e sintaxe do seu silêncio audível. De
referir que esta divisão do som organizado em três categorias me parece
bastante “arriscada”, no sentido de parecer subjectiva. Por exemplo: o
primeiro exemplo de silêncio (o do John Cage na sua obra 4´33´´) não
poderá ser considerado como “um silêncio considerado como valor em si na
música moderna”? O que é que distingue o silêncio do compositor Ligeti
na sua obra Nouvelles Aventures, de 1963-65, em que no final da obra o
condutor levanta a batuta e mantém-na levantada como se ainda houvesse
música para ser ouvida, e o público escuta esse silêncio, e o silêncio
da peça de John Cage 4´33´´de 1952 (e não de 1954 como afirma Nattiez
neste seu ensaio), em que ele nos pede para escutarmos o silêncio? É a
duração temporal? Não poderia o exemplo de silêncio de Cage estar
inserido nesta terceira categoria, e assim só teríamos duas categorias? E
porquê só três categorias? Não poderíamos incluir, por exemplo, uma
categoria dedicada aos silêncios causados por erros dos intérpretes? Se
um intérprete se esquecer momentaneamente da obra que está a executar e
ficar em silêncio, o público vai escutar esse silêncio (se não conhecer
a obra que está a ser executada) como fazendo parte da música (por
exemplo no caso de certa música contemporânea ocidental), e assim temos
uma nova categoria de silêncio organizado, não referido por Nattiez. E é
natural que existam muitas mais categorias, pois na realidade existem
diversos tipos de silêncios. Além dos já mencionados silêncios
organizados e não-organizados, existem silêncios tónicos e não-tónicos. O
exemplo de um silêncio não-tónico é o silêncio do campo, onde se ouvem
subliminarmente sons de cigarras, vento, chuva. O exemplo de um silêncio
tónico é estarmos no campo em silêncio, mas chegar-nos ao longe de
forma subliminal o som de sinos da igreja, ou de cantos religiosos.
Murray Schafer, diz que
“Qualquer coisa que se mova, em nosso
mundo, vibra o ar. Caso ela se mova de modo a oscilar mais que dezasseis
vezes por segundo, esse movimento é ouvido como som. O mundo, então,
está cheio de sons.” (Schafer, 1992:124).
Mas ao afirmar que o
“mundo está cheio de sons”, refere-se ao facto da inexistência de
silêncio absoluto, e que o “mundo” é sonoro. Talvez por isso mesmo,
Schafer diz-nos que com a
“intensidade da barragem sonora se
ampliando em todas as direcções, tornou-se moda falar de silêncio.
Portanto, falemos de silêncio. Nós o estamos deixando escapar.”
(Schafer, 1992:128).
Refere depois, todos os
“santuários silenciosos” onde “antigamente” nos podíamos “refugiar” da
“fadiga sonora”: “bosques”, “alto-mar”, numa “encosta de uma montanha
coberta de neve” (…) “Estava subentendido que cada ser humano tinha o
inalienável direito à tranquilidade” (…) “Até mesmo no coração das
cidades havia reservatórios de quietude. As igrejas eram esses
santuários, e também as bibliotecas.” (Schafer, 1992:128-129).
Repare-se que Schafer, nunca refere o termo “silêncio”, optando antes
por “tranquilidade” e “quietude”. E refere-se, claro, ao intenso
crescimento daquilo a que Schafer designa por ruído, mas que optaria por
um intenso crescimento sónico da nossa sociedade. Não foram só os
ruídos que aumentaram. Aumentaram os sons tónicos (hoje ouve-se música
em todo o lado); aumentaram os infra e ultra-sons; os sons eléctricos e
electrónicos; e existe de facto também, mais ruído.
“Enquanto
essas tradições existiram o conceito de silêncio era real e tinha
dignidade. Pensava-se no silêncio mais em termos figurativos do que
físicos, pois um mundo fisicamente silencioso era, naquele tempo, tão
altamente improvável como é hoje.” (Schafer, 1992:130).
Tínhamos mais “silêncio” – diz-nos Schafer -, mas nunca o silêncio
“físico” absoluto, pois esse só parece existir no vácuo e no interior
de uma câmara anecóica. Aliás, foi depois da sua experiência numa câmara
anecóica, que Cage concluiu:
“ O silêncio não existe. Sempre está acontecendo alguma coisa que produz som”. (Schafer, 1992:130).
Cage detectou a relatividade do silêncio. Para Schafer, a partir dessa altura,
“na música tradicional, por exemplo, quando falarmos de silêncio, isso
não significará silêncio absoluto ou físico, mas meramente a ausência de
sons musicais tradicionais.” (Schafer, 1992:132).
Desta
forma, os sons de, por exemplo, a respiração dos músicos, o virar da
folha da partitura, ou as tosses da assistência, para Schafer, passam a
ser sons musicais não-tradicionais, ou pelo menos, a partir de agora, e
segundo ele, tomamos consciência deles e podemos, inclui-los ou não, na
música que estamos a presenciar, e portanto considerá-los como musicais.
“Na realidade: silêncio – ausência de som – é negro. Na
óptica, o branco é a cor que contém todas as outras. Emprestamos daí o
termo “ruído branco”, a presença de todas as frequências audíveis em um
som complexo. Se filtrarmos o ruído branco, eliminando progressivamente
as faixas maiores de frequências mais altas e/ou mais baixas,
eventualmente vamos chegar ao som puro – o som sinusoidal. Filtrando-o,
também, teremos silêncio – total escuridão auditiva (…) Se é assim,
silêncio é ruído?” (Schafer, 1992:71).
Schafer partilha a
minha opinião de comparar o silêncio a um ruído negro (eu chamo-lhe
preto, por oposição ao ruído branco). E então questiona: “Será o
silêncio um ruído?”. Pois, na realidade, certo tipo de silêncio é ruído.
Existe silêncio ruidoso. O silêncio de alguém num deserto, que ouve o
som do mar muito subliminarmente, está numa paisagem sonora de silêncio
ruidoso. Mas se alguém estiver no campo e ouvir muito subliminarmente
uma banda filarmónica a tocar muito distante, esse silêncio é tónico.
Por isso, nem sempre o silêncio é ruído. Silêncio pode ser constituído
por todo o tipo de som. Segundo José Miguel Wisnik, no seu livro, “O Som
e o Sentido”,
“Não há som sem pausa (…) O som é presença e
ausência, e está, por menos que isso pareça, permeado de silêncio. Há
tantos ou mais silêncios quantos sons no som (…) Mas também, de ordem
reversa, há sempre som dentro do silêncio (…)” (Wisnik, 1999:18).
Para Roy Sorensen,
“Hearing silence is successful perception of an absence of sound. It is
not a failure to hear sound. A deaf man cannot hear silence.” (Nudds,
O’Callaghan, 2009:126).
Quando os corpos vibram, e essa
vibração ondulatória é propagada num meio elástico (ar, sólido ou
gasoso), produz-se som. Isto se houver seres com sistema auditivo,
porque senão são apenas vibrações. O ser humano experiencia som em toda a
sua vida. É impossível ao ser humano experienciar o silêncio absoluto.
Desse modo, o silêncio na vida e na música é um estado audível, logo um
som, um tipo de som. Para Max Diniz Cruzeiro, no seu ensaio O Silêncio ,
silêncio,
“Representa um estado sonoro em que o receptor não
encontra correspondente audível que interfira sobre si ou ao meio
ambiente.” (…) “Não existe o silêncio absoluto no meio ambiente, mas
existe o silêncio audível.”
Tal como Chion, Cruzeiro fala-nos de um silêncio audível. Depois diz-nos que,
“No meio ambiente o silencio é muitas vezes referenciado ao fato de não
ouvir elementos modificadores humanos sobre o meio. Um ambiente é dito
em silêncio neste caso mesmo que pássaros estejam cantarolando. Pois
eles compõem o ambiente natural. Ouvir o silêncio da natureza.”
Ou seja, para Cruzeiro, o silêncio é um tipo de som. Depois, e para nos
dar a absoluta certeza de que não existe tal coisa como o silêncio
absoluto, para o ser humano, Cruzeiro refere que
“Pode-se dizer
que o silêncio também é a não activação dos sensores orgânicos que
interpretam o ambiente. Indivíduos com problemas de surdez conseguem
ouvir pelas habilidades vibratórias da pele humana. Portanto não dispõe
da capacidade de silêncio absoluto .”
Cruzeiro indica-nos de seguida, que até existem já, geradores de silêncio:
“Algumas empresas como construtoras atualmente possuem equipamentos
para a geração de silêncio. Geralmente em grandes construções o ruído é
bastante significativo. Tais geradores vibracionais jogam na direção do
ruído um contra-ruído capaz de neutralizar as vibrações que geram som.
Nem toda a vibração gera som, mas todo som é proveniente de uma vibração
inicial. Até que provem o contrário ”.
Repare-se que, da mesma
forma que surgiram instrumentos musicais (sintetizadores, samplers)
capazes de produzir ruído, agora os músicos têm instrumentos capazes de
produzir silêncio, um silêncio audível. Silêncio audível que, “Quanto à
intensidade é possível classificar em hertz um nível não audível para
sua definição.”. Ou seja, somos capazes de medir o som do silêncio. O
silêncio é o instante em que nos apercebemos de que conseguimos ouvir
algo.