segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Entrevista a Vítor Rua #06 - Os efeitos sonoros podem ser pontos de partida para a composição?

Entrevista a Vítor Rua #06 - Os efeitos sonoros podem ser pontos de partida para a composição?

Às vezes até são a base, são o material da própria obra. Antes de começar uma peça, antigamente eu era muito meticuloso, pensava nos instrumentos e nas técnicas que ia usar, nas séries, nas notas, nas escalas, nos acordes, pensava em tudo. Agora quase tudo nasce ou do contacto com o instrumento ou de improvisações. Posso estar um dia, dois dias, ou até quinze dias e de repente surgirem matérias de sons e efeitos, que depois desenvolvo.

Entrevista a Vítor Rua #07 - A Racionalidade na Composição

Entrevista a Vítor Rua #07 - A Racionalidade na Composição

Na composição, uma pessoa tem que saber sempre quando é que a obra está terminado ou quando é que ainda se pode corrigir alguma coisa, mesmo que se componha em tempo real. Digamos que na improvisação, acho que o melhor que vem da composição é a racionalidade de uma pessoa estar a improvisar o mais possível em tempo real como se estivesse a compor. Por outro lado, na composição, todas essas liberdades intuitivas, espontâneas, e coisas que surgem do contacto com os instrumentos, foram-me muito úteis no trabalho de compositor. Quando pego um instrumento, faço-o sempre como uma criança que não sabe tocar. Isso às vezes é-me útil porque descubro matérias importantes.

Entrevista a Vítor Rua #08 - O fascínio das pautas

Entrevista a Vítor Rua #08 - O fascínio das pautas

Quando viajo, gosto de comprar folhas de pauta. Em todos os países a que vou, tento saber onde é o melhor sítio para as comprar e trago sempre imensas folhas. Tenho um amigo que me encaderna tudo muito luxuosamente. Gosto de me preocupar com isso porque escrevo com lápis, assim quando uso a borracha não esborrata, daí que eu tente escolher a melhor partitura. Quando a escolho, às vezes já estou a imaginar para que instrumentos é que é mais adequada – se para orquestra, para quarteto de cordas, para trio, ou solo. Às vezes, é a própria folha da partitura que me dá a ideia da instrumentação que vou usar.

Entrevista a Vítor Rua #09 - Sobre a obra Whistle Piano

Entrevista a Vítor Rua #09 - Sobre a obra Whistle Piano

Costumo compor sentado ao piano. Uma vez, ao escrever para vários instrumentos – não me lembro qual a obra, mas era para um ensemble que tinha uma flauta – estava eu a tocar umas notas no piano e para ter uma ideia clara do envelope do som, o fade-in e o fade-out do som, assobiava a nota, em que o assobio era a nota no piano, para tentar ver como é que eu queria que o som aparecesse. De repente tocaram à campainha, era um amigo meu músico, e eu abri-lhe a porta e disse-lhe assim qualquer coisa do género: “se não te importas, sentas-te aqui, é só dez minutos, estou a terminar uma coisa, venho já”. E ele ficou sentado a ver televisão sem som durante quinze minutos, e o que ele ouvia era eu a dar notas agudas no piano, com intervalos de meio-tom, e a assobiar essas notas para dentro da caixa de ressonância do piano. Depois parei e disse: “ok, desculpa lá, estava só a terminar uma coisa”, e ele disse assim uma coisa do género “que ideia fantástica, que coisa lindíssima, esta composição para piano e assobio”. E eu, quando ele me disse isso, parei de escrever a composição que estava a fazer e imediatamente fiz a peça que realmente devia fazer, que era a de piano e assobio. Ou seja, claro que depois estive durante imenso tempo a estudar que notas eram mais próprias, se queria ou não que o som do assobio fosse muito audível ou que fosse subliminar e estivesse escondido nas ressonâncias. No fundo, era quase uma ampliação das ressonâncias de certas notas do piano e depois também ver e reparar que quando era só uma nota, era um som mais ou menos contínuo. Mas, por exemplo, com intervalos de meio-tom, as ondas ficavam diferentes. Eram duas ondas, davam-se as duas notas e o que se ouvia já era uma espécie de sirene rápida. Mas se o intervalo fosse maior, já sem ser de meio-tom, já podia ser tipo uma sirene lenta. Tive que estudar a velocidade, o tempo, etc. A partir daí, é preciso estudar. Mas, digamos, a chave foi o momento em que a pessoa me disse o que eu estava a fazer e eu não sabia o que estava a fazer.

Entrevista a Vítor Rua #10 - Sobre as Partituras

Entrevista a Vítor Rua #10 - Sobre as Partituras

Durante muito tempo fez-me confusão aquela pausa de semínima do Luigi Nono, ele fazia uma espécie de um “n” e depois vi que era uma tradição e que vinha de trás, se calhar já do professor dele. Por exemplo, a escola holandesa, o Andriessen e outras pessoas também usaram isso durante um período. Cá, por exemplo, só o Joly Braga Santos usava esse traço assim a verde.
Gosto de observar a própria caligrafia, de ver. É quase como olhar para uma pintura, gosto de ver… Há pessoas, por exemplo o Pascal Dusapin, um compositor francês recente, que é tudo a régua… Aliás, até creio que ele tem coisas editadas relacionadas com pintura – uma exposição das próprias partituras. Outros compositores já fizeram isso. O Ligeti, por exemplo, tem coisas em que chega a fazer o traço da semínima de uma determinada forma para não interferir com outros sinais que estão por cima e por baixo. E aquilo, a determinada altura, fica com um certo humor. Mas funciona, e agrada-me ver esse lado. Mas quer dizer, isto são coisas que, não sei bem porquê, prefiro a ver o impresso. Aliás, talvez também por isso é que mesmo tendo os computadores e os programas mais sofisticados, nunca escrevi neles – ou se às vezes escrevo qualquer coisa é para dar um exemplo rápido…
Quase que prefiro o acto de repetir, aqueles sinais tradicionais de repetição. Mesmo que tenha que repetir a nota cinquenta vezes, prefiro pôr cinquenta notas porque posso pôr nuances diferentes para cada uma, de articulações, dinâmicas, ou assim. E gosto do lápis, da borracha, da régua, de uma boa folha, e depois se é na vertical, se é na horizontal. Mas o Arbeit French Fries foi para mim uma peça muito importante, foi uma encomenda da OrchestrUtopica, e é importante porque me permite explicar também imensas coisas do início, para ver como é que às vezes coisas simples podem gerar aparentemente coisas mais complexas – pelo menos para mim são complexas.

Entrevista a Vítor Rua #11 - Evolução dos Métodos de Composição

Entrevista a Vítor Rua #11 - Evolução dos Métodos de Composição

Como comecei a escrever para pessoas que conhecia, como foi o caso do John Tilbury, do Daniel Kientzy, do Peter Bowman e da Kathryn Bennets, comecei por escrever solos. Cheguei a escrever duas ou três peças para orquesta, mas era naquele sentido de escrever porque tinha de escrever. Queria ver o que acontecia ao escrever para orquestra.
Então comecei por escrever, por exemplo, uma peça para piano, depois outra para clarinete solo, e outra para flauta solo. Nessa altura achava que já podia escrever para um trio de piano, clarinete e flauta. Depois podia escrever um quarteto de cordas, e um outra peça para flauta. Aí já me sentia encorajado a escrever para flauta e quarteto de cordas. Fui conquistando assim… Primeiro os solos, depois os duos, os trios, os quartetos. Até que, finalmente, tive a oportunidade e a honra de escrever para a OrchestrUtopica. Foi bestial, porque pude finalmente pôr em prática uma teoria que, até à altura, não tinha sido ainda desenvolvida, que era a de imaginar uma situação. Por isso, essa obra foi importante porque foi o concretizar de uma coisa que vinha há quase dez anos a tentar concretizar musicalmente. Eu achava que podia utilizar um som, ou um conjunto de sons, módulos de sons, ou eventos sonoros de instrumentos musicais ou não, por si só, se forem belos, se forem bonitos, se forem agradáveis – por exemplo, um harpejo de harpa, uma raspagem com um objecto de metal como um gong, ou então um flätterzunge ou um fluttertongue.
Agora imaginemos que eu queria fazer uma composição e resolvia começá-la com uma raspagem no gong de metal. A sua reverberação iria dar origem a uma nota grave na flauta e depois haveria finalmente um harpejo de harpa. Eu imaginei essas três situações – os sons isolados, se forem belos, podem ser o início de uma composição que me pode interessar. Mas se em vez da raspagem do gong eu começar por um harpejo da harpa, depois fizer um flätterzunge da flauta e depois a raspagem, eu, em princípio, posso começar uma outra composição. Depois, posso ainda pensar em termos verticais e horizontais – talvez se ouvirmos os três sons em simultâneo se possa obter coisas interessantes. Por essa razão, comecei a trabalhar essencialmente em computador, porque podia fazer essas misturas por pistas e experimentar. Por norma, achava que as coisas resultavam se houvesse um grau mais ou menos grande de abstracção. Não costumo trabalho com escalas, ou modos específicos – lido com notas graves, médias e agudas, mas sem grande preocupação. Às vezes as pessoas perguntam-me: “Que escala utilizaste?” – e eu nem faço ideia se usei ou não usei uma escala, porque fui usando notas graves ou notas agudas à medida que ia precisando delas, o que não quer dizer que tenha que ser sempre assim. Mas, nesta peça, finalmente pude concretizar essa ideia. Não é uma collage – não foi pegar no solo de flauta, no solo de clarinete, no solo de trombone, no solo de piano e pô-los todos numa horizontalidade. Não, foi algo mais que isso. Foi ter essa experiência de poder escrever solos para flauta, trombone, trompete e clarinete e, de repente, torná-los abstractos. No fundo, era como se estivesse a escrever uma peça para orquestra – neste caso, para piano e orquestra – em que o piano era a espinha dorsal da peça. Por vezes, surgem coincidências, e algumas partes acabam por ter uma verticalidade e uma certa importância. Mas, na maior parte das vezes são apenas linhas horizontais de coisas independentes, que eu junto numa só, embora com uma pequena diferença – e é por isso que digo que não e bem collage, porque isso seria pegar exactamente nessas peças e juntá-las. Aqui não foi o caso, porque mesmo que eu quisesse fazer isso seria extremamente difícil. Posso escrever para os vários instrumentos com velocidades diferentes, posso escrever notas, escalas, modos, o que for, diferentes de quando escrevo para outros instrumentos, em que posso utilizar outros métodos e técnicas. Eu costumo alterar a velocidade ou o tempo de compasso para compasso, mas o piano tem sido o instrumento que uniformizou, digamos assim, todos os outros instrumentos que vão surgindo.

Entrevista a Vítor Rua #12 - A necessidade de combinar instrumentos

Entrevista a Vítor Rua #12 - A necessidade de combinar instrumentos

Não tenho a necessidade de misturar os instrumentos no sentido tradicional, como se estivesse a escrever uma peça para orquestra. No entanto, fui buscar muita informação a tratados de orquestração e a livros específicos sobre técnicas instrumentais. Peguei nas minhas experiências musicais das peças que fiz para flauta solo, clarinete solo, ou trio de clarinetes, na peça que fiz para piano e assobio, e utilizei aquilo que fui conquistando. Por exemplo, n’ A Síndrome de Babel, para o Schiaffini, há um momento em que ele utiliza o assobio. Nas peças Aerofonia I, II e III para solo, trio e quarteto de cordas, compostas em 2001, 2002 e 2003, respectivamente, isso também acontece. As pequenas coisas que eu conquisto num instrumento por vezes são repetidas ou aplicadas a outro instrumento.